Desculpa. Desculpa por não te ter dado um beijo na testa quando a minha mãe disse para o fazer. Estavas ali, deitado, sem respirar, sem te mexeres, sem falares, sem sorrires, roxo. Não tive coragem, confesso. Se fosse hoje, dava.
Não pretendo arranjar desculpas para o facto de não o ter feito, mas acho que foi por ainda não ter a perfeita noção de que nunca mais te iria ver, nem sentir, nem ouvir. Se soubesse o que sei hoje, abraçava-te, abraçava-te como nunca antes tinha abraçado alguém. Pelo menos para te tocar uma última vez.
Fazes-me muita falta, sabes. Quando venho cá, é como se estivesses comigo outra vez, é como se vivesse tudo outra vez. Lembro todos os passos que davas. Lembro-me de todas as palavras. Lembro-me quando uma vez estava a andar de bicicleta com muita força ali na rampa e tu me avisaste para ir mais devagar. Não te liguei, queria sentir o vento forte na cara. Caí, bati mesmo com a cara no chão, ainda hoje tenho uma pequena cicatriz.
Nada comparado com aquela que tenho no coração.
Correste para me ires ajudar, pegaste na bicicleta e atiraste-a para as silvas, a culpa foi dela, tinha que pagar pelo que me fez.
O sítio onde estás agora é tão escuro, Padrinho, nem sou capaz de imaginar.
Gostava de te poder mostrar outra vez o mundo cá de fora. Mostrava-te a vivacidade que aquele bebé tem agora, aquele que tu viste na barriga da tua filha, a crescer. As gargalhadas que ele dá. Dava muitas mais contigo, acredita. Fazia com que ele te recordasse como eu te recordo, todos os dias.
Lembras-te quando eu subi a ameixoeira, às 5 da tarde, pleno Verão, as ameixas a essa hora estão muito quentes, fazem mal. Chegaste perto de mim, mas em vez de me ralhares e obrigares-me a parar de as comer, sentaste-te comigo a comê-las…
São estas recordações de ti que me deixam com vontade de viver com mais força, a cada Sol que nasce. Eu ainda tenho a sorte de o ver, todos os dias. De o sentir na pele, a queimar.
Apenas queria pedir desculpa, por não te ter dado o último beijo, Padrinho.
Viseu.
Um conselho: Antes de te apaixonares, pensa duas vezes. Ou talvez seja melhor pensares mais do que duas. Ou então não penses, atira-te de cabeça para depois caires e não teres nada nem ninguém que te ajude a levantar.
É muito fácil falar de desilusões na adolescência, quando as hormonas "acordam" e vêm jogar às escondidas e os sentimentos formam uma espécie de horizonte, estão acima de qualquer outra coisa.
Cada vez que alguma coisa não corre como esperavam ou queriam, é como se o mundo caísse sobre os seus pés. É avassalador. Dói.
O mais impressionante é o facto de cairem inúmeras vezes e serem mais as vezes que se levantam e seguem em frente mais fortes que nunca.
A adolescência é na minha opinião uma "reencarnação" da infância, só com o pequeno acrescento dos sentimentos a ferver. É bastante difícil lidar com eles. Ou então são os adolescentes que os complicam...
Gostar é tão fácil. Tão fácil como não gostar. Um dia gostam disto, amanhã já gostam daquilo. Tão depressa amam alguém, como já a odeiam completamente.
Eu não quero ser adolescente. Ou pelo menos não queria. Agora que sou, é só uma questão de sofrer, cair e voltar a levantar-me. Se não tiver ninguém comigo que me ajude a levantar, não interessa, agarro-me a qualquer coisa, nem que seja a uma parede dura e fria.
Manuel tem 15 anos, quase 16. É um rapaz estranho. Chamam-no maluquinho.
Na minha opinião, não é. É apenas alguém que tem algum sentimento inexplicável dentro de si. Eu não acho que aquilo seja um sentimento, ou se o é, é daqueles mesmo muito maus. Já pensaram em interná-lo num hospício, mas eu não deixei.
Manuel tem pensamentos assassinos. Tinha 3 anos, matou um rato. Não o matou por estar a fazer mal a alguém, matou-o apenas porque estava triste. Depois de o ter morto, foi invadido por um prazer enorme. A morte dá-lhe prazer. Ver a morte, para ele, é a melhor coisa do mundo. É doentio.
Mas Manuel não tem culpa, é mais forte do que ele. É avassalador.
Olha para as pessoas e imagina-as degoladas, nuas. Mas não são todas, são aquelas para onde a mente dele o leva. Não faço a mínima ideia de onde vem aquilo, mas vai passar. Manuel vai deixar de ter estes pensamentos, vai ter prazer e felicidade, não do sangue que as veias dos seres que mata jorram, sim dos melhores sentimentos que existem no mundo.