Teresa sempre sonhou ter três filhos, mas a carreira só lhe permitiu ter um. Uma. Maria do Mar. Como ela gosta deste nome. Talvez por ter passado a maior parte dos seus dias perto do Mar, ou então talvez pelo facto de em pequena ter assistido vezes sem conta a um filme onde as cenas eram gravadas perto dele. A verdade é que se por acaso parisse os três filhos, não tinha nomes para lhes atribuir.

Maria do Mar tem 12 anos. Já passou por mais coisas na vida do que tu alguma vez irás passar. Não é órfã. Pelo contrário. Sempre teve mãe, pai, avó, avô, prima, primo, tia, tio (...) Sempre teve a família por perto. Na realidade não é órfã. Mas essa realidade não é a dela. Maria do Mar nunca ouve ninguém, ninguém mesmo a dirigir-lhe uma palavra de carinho, amor, amizade. Nenhuma dessas palavras que tu ouves todos os dias, mesmo achando-as falsas, ouve-las, sente-las. Maria do Mar, não. Sente muito a falta delas. É como se só vivesse metade da sua vida. A outra metade está escondida, desaparecida, algures aconchegada noutro lar, que não é o lugar onde Maria do Mar vive.

Teresa tenta. Tenta explicar o quanto ama Maria do Mar. Afinal ela é sua filha. Mas não consegue. Teresa não pode, nunca tem nem teve ninguém, ninguém mesmo que lhe dissesse o quanto é importante. António e Antónia já não querem saber dela, agora só se preocupam com a Violência Doméstica. Ela sim é uma filha para eles. Não fuma. Eles gostavam tanto que a Teresa fosse assim.